Perspectivas menos favoráveis para indústria e serviços motivaram a revisão; entidade passou a prever queda de 0,7% na indústria de transformação
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) diminuiu de 2% para 1,6% a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2026. De acordo com o Informe Conjuntural do 3º Trimestre, divulgado nesta quarta-feira (28), a revisão para baixo do desempenho da economia se deve, principalmente, às perspectivas menos favoráveis para a indústria — em especial o segmento de transformação — e os serviços, cujos efeitos devem se sobrepor ao avanço da agropecuária e da indústria extrativa.
“Quando a gente analisa os setores, há uma divisão clara. Os setores em que nós estamos mantendo ou aumentando a projeção de crescimento são segmentos que independem do que a gente chama de ciclo econômico. Não dependem muito da demanda interna e, portanto, não estão muito afetados pela política monetária. Esses são, especialmente, o setor extrativo mineral e a agropecuária. Por outro lado, os setores mais dependentes, mais sensíveis aos juros, que é o caso da indústria de transformação, do comércio e, em alguma medida, os serviços, têm um movimento contrário. Então, quem está mais dependente de mercado interno está sendo muito afetado por conta da taxa de juros”, explica Mario Sergio Telles, diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI.
Confira a análise completa sobre as projeções na sonora de Mario Sergio Telles, diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI:
A desaceleração da economia deve ser sentida de forma mais intensa pela indústria, cuja expectativa de crescimento foi alterada de 2% para 1,3% — a maior revisão negativa entre os setores. O resultado revela que nem mesmo a expansão da indústria extrativa, estimada em 9,1%, será capaz de compensar o enfraquecimento da indústria de transformação.
O segmento da transformação segue pressionado pela queda da demanda interna, pela piora das condições financeiras das empresas e das famílias — consequência dos juros elevados—, pela entrada substancial de produtos importados e pelo aumento dos custos de produção. Por isso, da projeção de alta de 0,6%, divulgada em julho, a CNI passou a estimar queda de 0,7% do setor para 2026. Embora também sofra com os efeitos dos juros altos e o enfraquecimento da demanda, a indústria da construção teve a expectativa de alta mantida em 1,5%. A expansão do Minha Casa, Minha Vida e dos investimentos em infraestrutura devem dar sustentação ao setor.
A exemplo da indústria, o setor de serviços também dá sinais de esgotamento em sua capacidade de crescimento. O volume de serviços praticamente estável desde o fim do ano passado e a desaceleração do comércio varejista, sobretudo nos segmentos mais sensíveis ao crédito, contribuíram para a revisão do PIB do setor, que passou de alta de 1,9% para avanço de 1,6%.
Entre os setores produtivos, a agropecuária foi a única a ter a projeção de crescimento revista para cima. Impulsionado pela revisão positiva da 2ª safra de milho, o PIB do setor deve subir 2,5% e não mais 1,8%, conforme o cálculo anterior.
Mercado de trabalho desacelera, mas ainda sustenta a demanda
O mercado de trabalho continuará sendo um importante fator de sustentação à demanda, avalia o documento. Embora a geração de vagas formais, especialmente na indústria e no comércio, esteja em desaceleração, a CNI prevê crescimento de 1,2% da população ocupada em 2026. Nesse cenário, a taxa de desemprego, hoje em 5,3%, recuaria para 5% ao fim do ano. O mercado de trabalho aquecido e o menor número de trabalhadores disponíveis para atender à demanda do setor produtivo devem pressionar os salários para cima. A projeção da entidade é que a massa de rendimento real salte 4,6% em relação ao ano passado.
Meta fiscal será cumprida, mas dívida pública deve alcançar 83,7% do PIB
A política fiscal expansionista também deve contribuir para estimular a demanda e, portanto, o crescimento da atividade econômica. As despesas federais devem crescer 4,6% em termos reais, isto é, acima da inflação, impulsionadas pelo pagamento de benefícios previdenciários, gastos com pessoal e execução de despesas discricionárias em ano eleitoral. Já a receita líquida deve aumentar 5,9%, refletindo a redução de incentivos fiscais, a limitação ao aproveitamento de créditos tributários e pelas receitas ligadas ao petróleo e por outras receitas administradas, entre outras medidas de arrecadação.
Mesmo assim, o governo federal deve encerrar o ano com déficit primário de R$ 54,6 bilhões, o equivalente a 0,4% do PIB projetado pela CNI. As contas públicas só não fecharão o ano no vermelho, de fato, porque cerca de R$ 67,3 bilhões em precatórios e outras despesas não serão computadas na meta de resultado primário. Diante das exceções, estima-se superávit de R$ 12,6 bilhões (0,1% do PIB).
“A expectativa da CNI para as contas públicas é muito ruim. Nós devemos ter, novamente, déficit primário, quando a gente vê o déficit real, sem fazer exclusões para fins de cumprimento da meta. Esse déficit, com uma taxa de juros muito elevada, deve fazer com que a dívida bruta suba mais de 5 pontos percentuais do PIB em apenas um ano, passando de 78,6% para 83,7%”, avalia Mario Sergio Telles.
Inflação deve acelerar e Banco Central continuará flexibilização gradual da Selic
Segundo a CNI, o alívio da inflação observado entre junho e agosto não deve se repetir nos últimos meses do ano. A pressão inflacionária tende a acelerar por influência de vários fatores: alimentos, preços administrados, como energia e combustíveis, e serviços. Nesse cenário, projeta-se que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) suba 5,15% no ano, quase um ponto percentual acima dos 4,26% registrados no ano passado.
Considerando a persistência da inflação como uma das principais razões para um ciclo de corte dos juros mais lento, o Banco Central deve reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual em cada uma das duas reuniões restantes de 2026, levando a taxa básica de juros a encerrar o ano em 13,25%. Apesar disso, a CNI considera haver espaço para uma flexibilização mais rápida da política monetária.
“Juros a 13,25% ao fim do ano, dadas as expectativas de inflação 12 meses à frente, ainda representa uma taxa de juros real de 9%. Isso é quase o dobro da taxa neutra, que é de 5%, que não estimula um crescimento forte nem uma contração da economia. Portanto, 9% ainda desestimula fortemente o crescimento da economia. Por todo o desaquecimento do mercado interno, a taxa de juros deveria e poderia estar mais baixa sem que o Banco Central abrisse mão da convergência da inflação para a meta”, aponta Telles.
Ao longo do ano, os efeitos dos juros altos sobre o mercado de crédito não impactaram empresas e famílias da mesma forma. Até agosto, o crescimento das concessões às pessoas jurídicas superava a expansão do crédito para as pessoas físicas, movimento que deve continuar no último quadrimestre de 2026, ainda que em menor ritmo. De acordo com o documento, as concessões totais de crédito devem subir 5,15%. Para as empresas, a alta deve chegar a 6,4%; para as famílias, a 4%.
Superávit da balança comercial deve subir quase 30% em relação a 2025
Lideradas pela indústria extrativa, as exportações devem crescer 10,3% em relação ao ano passado, alcançando US$ 386,7 bilhões. O valor se deve, principalmente, à alta dos preços das commodities e demais produtos da pauta de exportação.
A exemplo das exportações, o valor elevado das importações sofre maior influência da alta dos preços do que do volume. Destacam-se os combustíveis e lubrificantes, e os bens de consumo, como os automóveis. A expectativa é que as importações totalizem US$ 309,4 bilhões, 6,4% a mais do que em 2025. Com isso, a balança comercial deve fechar 2026 com superávit de US$ 77,3 bilhões, quase 30% a mais do que no ano passado.