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Uma conta que o Brasil não pode mais pagar

O nosso país desperdiça anualmente R$ 1,7 trilhão com o Custo Brasil, o que representa 20% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Mais do que um indicador, esse número revela o peso de entraves estruturais, tributários, burocráticos e de infraestrutura que encarecem a produção, afastam investimentos e limitam a capacidade de crescimento do país. É uma conta que recai sobre a indústria, compromete a competitividade das empresas e chega ao bolso de todos os brasileiros.

Temos trabalhado arduamente para reverter esse cenário, com a mobilização da indústria e a articulação com o governo federal. Elaboramos estudos e pesquisas, monitoramos projetos e legislações e participamos ativamente de debates. Recentemente, lançamos uma campanha para mostrar como essas ineficiências afetam o nosso dia a dia e por que superá-las precisa ser uma prioridade nacional.

Quando produzir fica mais caro, o consumidor paga mais, a inflação aumenta e a economia se torna menos eficiente. Precisamos reduzir o Custo Brasil para recuperar a competitividade da indústria e promover um ambiente eficiente e competitivo nos mercados interno e externo. O país precisa avançar em ritmo superior ao de seus concorrentes para reduzir a distância que nos separa das economias mais competitivas.

Pesquisa da CNI mostra que 70% dos empresários industriais consideram o sistema tributário o maior problema do Custo Brasil. Outros obstáculos são, por exemplo, a falta de mão de obra qualificada e de linhas de financiamento para os negócios e a insegurança jurídica. Três em cada quatro empresários afirmam que investiriam mais se a taxa de juros dos empréstimos caísse pela metade. Por mais que a Selic tenha tido uma discreta redução, não podemos aceitar esse patamar elevado de 13,75% ao ano.

Enfrentar esse cenário exige uma agenda consistente, focada no equilíbrio fiscal, crédito em condições compatíveis com o investimento produtivo, qualificação profissional, estabilidade nas regras, redução da burocracia, infraestrutura moderna e preço adequado de energia elétrica. Apesar de termos fontes renováveis e sobra de energia, temos uma das contas de luz mais caras do mundo, com mais de 40% da tarifa composta por impostos e encargos. Quando buscamos agregar valor, deparamo-nos com a realidade de que o país incorpora mais custos do que valor nos seus produtos e serviços, sobretudo por causa do Custo Brasil.

Essa realidade só será transformada quando tivermos uma união entre os setores produtivos e o poder público, a partir de um compromisso de longo prazo. Nesse sentido, a CNI lançou o Projeto Brasil 2050, com 50 propostas distribuídas em cinco eixos, voltadas ao equilíbrio fiscal, ao fortalecimento das vantagens competitivas, à produção de novas atividades, à inserção internacional e à melhoria do ambiente de negócios.

O país não pode desperdiçar 20% do PIB enquanto busca crescer, criar empregos e melhorar a renda e a qualidade de vida da população. Reduzir o Custo Brasil é condição para o fortalecimento da indústria e para termos uma economia mais produtiva, sustentável e inclusiva. O Brasil tem enorme potencial para avançar. Falta transformar essa capacidade em decisões concretas e em agendas de Estado, com políticas de longo prazo, e não apenas propostas que se perdem a cada mandato de quatro anos.

*Ricardo Alban é empresário e presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

O artigo foi publicado na Veja, em 30 de outubro de 2026.

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