Estudo revela abismo de produtividade frente a países desenvolvidos e propõe agenda integrada para reverter apagão de talentos e impulsionar a economia verde e digital
O aumento da escolaridade dos brasileiros nas últimas décadas não foi acompanhado, na mesma proporção, por avanços na aprendizagem e na produtividade do trabalho. O descompasso é um dos principais entraves à formação de profissionais para uma indústria mais tecnológica, aponta um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) lançado nesta sexta-feira (25/9). O cenário amplia desigualdades regionais e limita a competitividade industrial.
Os dados mostram desafios tanto na aprendizagem quanto na capacidade de gerar valor na economia. A produtividade do trabalho, que mede o valor gerado, em média, por hora trabalhada, é de US$ 21,2 no Brasil, considerando a Paridade do Poder de Compra (PPC). Na educação básica, 73% dos estudantes brasileiros avaliados pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) estão abaixo do nível mínimo de proficiência em matemática: 50% em leitura e 55% em ciências.
O diagnóstico faz parte do manifesto “Uma Revolução na Educação Brasileira: Propostas por uma agenda STEM integrada da base ao ensino superior”. O documento defende a educação como infraestrutura estratégica para o desenvolvimento do país e alerta que o Brasil avançou na expansão do acesso à escola, mas ainda convive com uma “escolaridade sem aprendizagem suficiente”. Segundo a CNI, essa deficiência compromete a preparação do país para as transições digital e verde.
Para o presidente da CNI, Ricardo Alban, a situação exige uma mudança de paradigma. “A antiga fórmula de estudar, conseguir um emprego e aposentar-se foi destroçada pelas transformações tecnológicas. Hoje, a educação precisa ser o sistema operacional de toda a vida do trabalhador. A nova etapa do desenvolvimento brasileiro dependerá da nossa capacidade de transformar conhecimento em inovação e em produtividade”, afirma.
O abismo da produtividade e a crise na Educação Básica
A baixa aprendizagem na Educação Básica é apontada pelo estudo como um dos principais gargalos para a formação de profissionais qualificados. As dificuldades aparecem desde os primeiros anos escolares e persistem ao longo da trajetória dos estudantes. No Estudo Internacional de Progresso em Leitura (PIRLS 2021), que avalia a compreensão de leitura de alunos do 4º ano do Ensino Fundamental, o Brasil ficou na 52ª posição entre 57 países ou regiões avaliadas. Cerca de 38% das crianças brasileiras não atingiram sequer o nível básico de leitura.
O problema também aparece no aprendizado de matemática. Na oitava edição do Estudo Internacional de Tendências em Matemática e Ciências (TIMSS 2023), 62% dos estudantes brasileiros do 8º ano ficaram abaixo do nível básico na disciplina, ante uma média internacional de 19%. Apenas 1% alcançou o nível máximo de proficiência.
Aos 15 anos, o déficit permanece. Dados do PISA 2022 mostram que 73% dos estudantes brasileiros avaliados estão abaixo do nível mínimo de proficiência em matemática, enquanto 50% apresentam desempenho insuficiente em leitura e 55%, em ciências. No outro extremo, menos de 3% dos estudantes atingiram os níveis mais altos de proficiência em matemática e menos de 6%, em ciências.
“O Brasil tem todas as condições para ser protagonista em inteligência artificial, bioeconomia e transição energética. No entanto, essa ambição exige uma base educacional sólida. Hoje, quase três quartos dos nossos jovens saem da escola sem saber o básico de matemática. O fortalecimento do letramento e do raciocínio lógico desde os primeiros anos de formação é uma prioridade estratégica para o país”, afirma Luís Carlos Affonso, coordenador do Grupo de Trabalho de Recursos Humanos para Inovação da MEI e vice-presidente da Embraer.
Brasil está entre os últimos na formação de profissionais STEM
As deficiências na aprendizagem se somam à baixa formação de profissionais em áreas estratégicas para uma economia mais tecnológica. No Ensino Superior, esse gargalo aparece especialmente na formação em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM, na sigla em inglês).
Em 2023, apenas 15,6% dos diplomados brasileiros em cursos de bacharelado formaram-se nessas áreas. O resultado colocou o Brasil na 47ª posição entre 48 países com dados disponíveis no relatório Education at a Glance, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
A formação de professores nessas áreas também acende um alerta. O número de concluintes em licenciaturas de Biologia, Computação, Física, Matemática e Química caiu de 36 mil, em 2010, para 28 mil, em 2024. Segundo o estudo, fortalecer a formação desses profissionais é fundamental para melhorar o ensino de matemática, ciências e computação desde a Educação Básica.
A pesquisa também aponta a baixa participação feminina nas carreiras tecnológicas. Em 2024, as mulheres representaram 26% dos concluintes em Engenharia e apenas 19% em Computação e Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Na Engenharia, houve ainda um recuo em relação a 2018, quando elas correspondiam a 32% dos formados.
Para o presidente da CNI, a transição ecológica e digital do Brasil é uma oportunidade única, mas máquinas, sensores e softwares só geram ganhos reais de produtividade se tivermos pessoas capacitadas para operá-los. “Ou fazemos da educação o centro da nossa estratégia de competitividade hoje, ou seremos meros espectadores do desenvolvimento alheio amanhã”, conclui.
Recomendações da CNI para a transformação
Para evitar a estagnação na chamada “armadilha da renda média”, o manifesto propõe uma agenda integrada, da Educação Básica ao Ensino Superior, com ações voltadas à melhoria da aprendizagem, à formação de professores, à expansão do ensino técnico e ao desenvolvimento das competências exigidas pelas transições digital e verde. O estudo defende que os recursos existentes sejam articulados de acordo com os resultados que se pretende alcançar, em vez de tratados como programas isolados.
Para colocar essa agenda em prática, a CNI apresenta quatro frentes de atuação que buscam conectar a formação dos estudantes às necessidades do setor produtivo e preparar os trabalhadores para as transformações tecnológicas e ambientais:
- Financiamento orientado a resultados: articular recursos já existentes, como Fundeb, Salário-Educação, Sistema S e Juros por Educação, direcionando-os à melhoria da aprendizagem, à permanência dos estudantes e à expansão da Educação Profissional e Tecnológica (EPT);
- Valorização e formação docente: fortalecer a formação inicial e continuada de professores e incorporar competências digitais, metodologias baseadas em projetos, cultura maker e pensamento computacional;
- Expansão da Educação Profissional e Tecnológica: ampliar a oferta de formação técnica articulada ao Ensino Médio e aproximá-la das demandas do setor produtivo, fortalecendo a transição entre escola e trabalho. Na Educação de Jovens e Adultos (EJA), a proposta inclui formatos flexíveis, módulos curtos, reconhecimento de conhecimentos prévios e certificações intermediárias;
- Competências para as transições digital e verde: ampliar a formação em áreas ligadas à digitalização e desenvolver cursos e microcredenciais voltados à eficiência energética, economia circular, bioeconomia e descarbonização, além de promover a requalificação (reskilling) e o aperfeiçoamento (upskilling) dos trabalhadores.