A cabeça, não o fígado

05 Dezembro 2017 In Artigos
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Robson de Andrade* Robson de Andrade* Foto/Reprodução-CNI

O senso comum explica que a aproximação das eleições dificulta a aprovação, pelo Congresso Nacional, de medidas necessárias para a saúde econômica do país, mas talvez antipáticas ao eleitorado. É da natureza humana buscar sempre o conforto, a situação ótima, indolor. Há, porém, nesse caso, um problema: se se alivia apenas a dor, mas não se combate a causa, mais adiante a doença pode matar.

Há algo ainda mais ilusório do que atacar apenas os sintomas da doença: não fazer nada, esperando que o problema se resolva espontaneamente. É a ilusão do "se nada aconteceu até agora, então nada vai acontecer". Em geral, o mal que não é enfrentado progride, mesmo silenciosamente. Quando, afinal, ele é diagnosticado, o tratamento precisa ser bem mais radical, e muitas vezes nem tem mais solução.

Existe apenas um caminho para colocar o Brasil na rota do crescimento sustentado, sem o qual não haverá a retomada firme do emprego e da renda. É preciso tomar medidas que evitem a expansão descontrolada da dívida pública. Se isso não for feito, não haverá como impedir uma nova alta da inflação e dos juros, o que abortaria, no nascedouro, a recuperação econômica, que começa a dar as caras depois de anos dificílimos.

É preciso dizer a verdade aos brasileiros: o único jeito de atacar a dívida pública para valer é corrigindo as distorções da Previdência Social. Urge adaptá-la à nova e mais alta expectativa de vida da população e acabar com privilégios de uma minoria que suga da sociedade, de modo completamente injusto, uma gigantesca massa de recursos, perpetuando e agravando a difícil situação das contas do setor público.

A verdade é uma só: ou este governo faz a reforma da Previdência ou o próximo terá de fazê-la para o país não quebrar. A alternativa seria aumentar impostos, mas isso já está claro que a sociedade não aceita. Então, não há e não haverá escapatória: o Brasil precisa enfrentar o problema; quanto mais cedo e mais transparentemente, melhor para as contas públicas e para a nossa democracia.

O Brasil suportará um novo estelionato eleitoral? Como é que um presidente recém-eleito vai explicar para o eleitor que precisa mexer na Previdência depois de passar a campanha garantindo que não seria necessário? Será que precisamos de mais desilusão, desencanto, revolta? Não seria melhor encarar os fatos agora, num ambiente de relativa paz política, em vez de transferir uma nova conflagração para 2019?

Se o patriotismo e o bom senso recomendam dizer a verdade aos cidadãos, mostrar que o problema existe e precisa ser solucionado, por que não começar já, quando o governo do presidente Michel Temer está disposto a desatar esse nó de forma realista, apresentando uma proposta viável e pronto a negociar seus termos com um Poder Legislativo que, felizmente, readquiriu seu protagonismo? Só que mais protagonismo implica, também, mais responsabilidade.

Não sou ingênuo a ponto de pedir aos políticos que pensem apenas no Brasil e deixem de lado seus interesses eleitorais. Mas escrevo este artigo para argumentar que é possível fazer convergir ambos. Existem situações em que, inclusive para os políticos, quanto melhor, melhor, especialmente se têm possibilidades reais de chegar ao poder. Deixemos o quanto pior, melhor para os que estão, por suas próprias limitações, fora do jogo.

Pelo menos por uma vez, vamos raciocinar com a cabeça e não com o fígado. É preciso ajudar o Brasil a equilibrar as contas, acelerar a retomada da economia, criar mais empregos e melhorar a vida dos trabalhadores e de suas famílias.


* Presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI)
O artigo foi publicado na segunda-feira (4), no jornal Folha de S. Paulo.

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